O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central reduziu nesta quarta-feira (16) a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. O corte de 0,25 ponto percentual foi o quinto consecutivo e ocorreu de forma unânime. A decisão marcou a última reunião do Copom antes do primeiro turno das eleições de 2026.
No comunicado, o Banco Central afirmou que o ambiente externo permanece incerto, principalmente em razão dos conflitos no Oriente Médio e das dúvidas sobre a política monetária de economias avançadas. No cenário doméstico, a inflação ainda exige atenção, e o Copom reforçou que os próximos passos dependerão da evolução dos preços e das demais informações econômicas.
A decisão ocorre em um momento em que a inflação acumulada em 12 meses até agosto estava em 4,22%, acima do centro da meta de inflação, de 3%, mas abaixo do limite superior de 4,5%. O BC também tem destacado riscos relacionados à inflação de serviços, às expectativas desancoradas, ao câmbio e à situação fiscal.
Selic é definida pelo Copom e é o principal instrumento de política monetária do BCFoto: Rafa Neddermeyer/Agência BrasilA Selic é definida pelo Copom e é o principal instrumento de política monetária do Banco Central. A taxa influencia outras taxas de juros da economia por diferentes canais, afetando crédito, consumo, investimentos, atividade econômica, câmbio e inflação.
Com a decisão, a discussão sobre o futuro dos juros também entra no debate eleitoral. Os seis candidatos que aparecem entre os principais nomes da disputa apresentam estratégias diferentes para lidar com juros, inflação, dívida pública e contas do governo.
Veja as propostas dos candidatos para a Selic e a política monetária
Selic influencia outras taxas de juros da economia por diferentes canaisFoto: Pexels/ND MaisAugusto Cury
O plano de governo de Augusto Cury (Avante) coloca o equilíbrio das contas públicas como uma das bases da política econômica. O documento estabelece como objetivo perseguir um déficit público próximo de zero durante o mandato, “sem aventuras fiscais, preservando investimentos estratégicos e fortalecendo a confiança dos brasileiros e dos investidores nacionais e internacionais”.
Augusto Cury durante entrevista exclusiva ao ND Mais em São PauloFoto: ND MaisA proposta cita uma redução “gradual e sustentável da dívida pública por meio do crescimento econômico, da responsabilidade fiscal, do equilíbrio das contas públicas e da modernização do Estado”.
O candidato do Avante propõe revisar as matrizes de risco bancárias junto às instituições financeiras como forma de conter a alta da Selic. Ele também promete criar o “Banco do Empreendedor”, com juros fixados entre 5% e 6% ao ano e oferta de crédito de até R$ 20 mil.
Flávio Bolsonaro
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) associa a queda sustentável dos juros ao controle das contas públicas. O documento não apresenta uma nova meta numérica para a Selic, mas cita um “tesouraço”, propõe cortes de despesas, estabilização e redução da dívida pública, além de redução de impostos e um novo mecanismo de controle dos gastos. O candidato do PL também propõe mudar a regra do arcabouço fiscal.
Flávio Bolsonaro propõe cortes de despesas no plano de governoFoto: Jefferson Rudy/Agência Senado/ND MaisA proposta econômica também prevê limitar o crédito subsidiado com recursos do Tesouro e adotar medidas para conter pressões inflacionárias.
“Ao estabilizar e reduzir a dívida pública, nosso governo vai criar as condições para que os juros básicos fiquem em linha com a média internacional e para que a inflação volte ao centro da meta. É o que permite que o crediário, o financiamento da casa e o capital de giro do pequeno negócio deixem de ser impagáveis”, diz o documento.
Lula
O plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também não estabelece uma meta numérica para a taxa Selic. O documento defende a manutenção do atual arcabouço fiscal e afirma que o objetivo é criar condições para uma “redução sustentada das taxas de juros”, combinando inflação controlada e responsabilidade fiscal. Também prevê continuidade de investimentos públicos e da política de neoindustrialização.
Plano de governo de Lula defende a manutenção do atual arcabouço fiscalFoto: Ricardo Stuckert/PREm sabatina realizada pelos jornais Valor Econômico, O Globo e pela rádio CBN na terça-feira (15), às vésperas da decisão do Copom, o representante da campanha de Lula e ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a meta de inflação de 3% não deveria ser alterada e relacionou uma queda sustentável dos juros à responsabilidade fiscal.
Renan Santos
O candidato Renan Santos (Missão) apresenta uma meta mais específica para os juros. No site oficial divulgado pela candidatura, a proposta é levar a Selic a 7% ao ano até 2030, acompanhada de déficit nominal zero. A estratégia apresentada parte da ideia de que a redução das despesas públicas é necessária para diminuir o custo dos juros.
Renan Santos (Missão) durante agenda em Joinville, Santa CatarinaFoto: Divulgação/ND MaisO candidato do Missão quer propor a “PEC do Equilíbrio Fiscal”, com um ajuste de R$ 212 bilhões anuais para conter o crescimento da dívida. A proposta ainda prevê uma economia estimada em R$ 1,1 trilhão até 2031. O plano inclui uma ampla agenda de ajuste fiscal, com redução de despesas públicas, revisão de renúncias fiscais e reformas destinadas a conter o crescimento dos gastos.
Ronaldo Caiado
O plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD) afirma que pretende coordenar as políticas fiscal e monetária respeitando a autonomia do Banco Central, reduzir pressões fiscais sobre os preços e criar condições para que inflação controlada, juros menores e crescimento possam coexistir.
Ronaldo Caiado pretende coordenar as políticas fiscal e monetária respeitando a autonomia do BCFoto: Gabriel Pinheiro/CNI/Divulgação/ND MaisA equipe econômica de Caiado propõe uma estratégia de ajuste fiscal para estabilizar a dívida pública em até três anos. O coordenador do plano, Roberto Brant, afirmou que a campanha trabalha com a possibilidade de levar os juros básicos para a faixa de 7% a 8% ao ano após a implementação das medidas fiscais. Sobre a meta de inflação, Brant afirmou que a campanha não pretende alterá-la, mantendo o objetivo de 3%.
Romeu Zema
O plano de governo de Romeu Zema (Novo) coloca a redução dos juros entre seus principais objetivos econômicos. O documento propõe um chamado choque fiscal para estabilizar a relação entre dívida e PIB, com reformas e superávits primários como caminho para reduzir a curva de juros.
Plano de governo de Zema inclui redução do IOF sobre operações financeirasFoto: Divulgação Novo/ND MaisA proposta também inclui redução do IOF sobre operações financeiras, ampliação da concorrência bancária e redução gradual de programas de crédito direcionado, incluindo linhas subsidiadas do BNDES. Além disso, Zema também já declarou apoio à autonomia do Banco Central.
Selic na prática: o que muda para o eleitor
A Selic funciona como referência para o sistema financeiro. Quando a taxa básica sobe, em geral o crédito fica mais caro e o consumo e os investimentos tendem a desacelerar; quando cai, ocorre o movimento contrário, embora a transmissão para as taxas cobradas pelos bancos não seja imediata nem igual para todas as modalidades.
Crédito: juros básicos mais altos aumentam o custo de captação das instituições financeiras e podem se refletir em empréstimos, cheque especial, crédito pessoal e outras modalidades. Uma Selic menor pode abrir espaço para redução dessas taxas, mas o efeito depende também do risco de inadimplência, dos custos bancários e das condições de cada operação.
Financiamento: financiamentos de imóveis, veículos e outros bens são influenciados pelas condições gerais de crédito. A queda da Selic pode contribuir para taxas menores ao longo do tempo, mas não significa redução automática e imediata da parcela de um financiamento já contratado.
Taxa Selic funciona como referência para o sistema financeiro e impacta o bolso do eleitorFoto: Magnific/ND MaisInvestimentos: a Selic também influencia diretamente o rendimento de aplicações de renda fixa que acompanham a taxa básica ou indicadores próximos dela. Em períodos de juros elevados, investimentos pós-fixados tendem a oferecer remuneração maior; com a queda da Selic, esses retornos tendem a diminuir.
Consumo e inflação: quando os juros estão elevados, o crédito fica mais caro e famílias e empresas tendem a adiar parte do consumo e dos investimentos. Esse movimento reduz a demanda e é um dos mecanismos utilizados pela política monetária para controlar a inflação. Com juros menores, o crédito tende a estimular a atividade econômica, desde que as condições de inflação permitam.
