A dor de perder uma filha em um acidente de trânsito acompanha diariamente o auxiliar administrativo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Adilson José Goedert, 61 anos.
Em 15 de novembro de 2025, Thalya Goedert, 26 anos, morreu após perder o controle da motocicleta no Túnel Antonieta de Barros, em Florianópolis. O laudo apontou que ela adormeceu enquanto conduzia o veículo, mas o pai acredita que a estrutura metálica instalada nas laterais do túnel agravou de forma decisiva a tragédia.
A sequência de ocorrências preocupa as autoridades. Neste ano, até o fim de junho, foram registrados seis acidentes no túnel, dois com morte. No mesmo período de 2025 foram 11 acidentes, mas sem mortes. Ao longo de todo o ano passado, entretanto, 21 ocorrências, incluindo duas mortes e 13 acidentes com feridos.
Motivação de acidentes no Túnel Antonieta de Barros chama a atenção
Para a PMRv (Polícia Militar Rodoviária), chama a atenção que os três últimos acidentes, com morte envolvendo motociclistas, foram sem colisão com outros veículos. O comandante do 1º Batalhão da corporação, tenente coronel Tatiano Cabral Broering, afirma que a combinação entre excesso de velocidade, fadiga, desatenção e a baixa proteção oferecida pelas motocicletas aumenta significativamente o risco de mortes.
Última morte no Túnel Antonieta de Barros foi nesta terça-feira (30)
Vídeo: GMF/Reprodução/ND Mais
Para Adilson, a perda de Thalya se transformou em preocupação com outras famílias. “Pode ter certeza de que outras situações vão acontecer se nada for feito. Deus permita que não.” A jovem tinha se mudado para um apartamento há duas semanas e trabalhava em dois empregos.
“Era uma menina muito querida. Não posso dizer que a culpa foi só da grade, mas a forma como ela morreu foi consequência daquela estrutura. Pode até ter morrido no acidente, mas a decapitação aconteceu por causa da grade”, afirma Adilson referindo-se ao guarda-corpo que protege os pedestres e onde Thalya bateu.
Na terça-feira (30), outra morte. Um motociclista de 34 anos caiu sozinho no túnel. Segundo PMRv, as imagens das câmeras indicam que nenhum outro veículo participou do acidente. A principal hipótese é de mal súbito ou sonolência, mas o caso segue sob investigação. Em 11 de abril, a segunda morte deste ano. Um motociclista, de 19 anos, bateu sozinho na mureta do túnel. Tinha uma familiar na garupa, que foi resgatada com lesões graves e levada ao hospital.
Orientações e investimentos
A orientação é que motociclistas mantenham velocidade compatível, evitem mudanças bruscas de direção e trafeguem preferencialmente pela faixa central, reduzindo a possibilidade de impacto contra as estruturas laterais. A corporação também intensificou a fiscalização com radares portáteis na entrada e na saída do túnel e estuda formas de minimizar os efeitos das colisões nas grades de proteção destinadas aos pedestres. Outro cuidado importante é manter as motocicletas e veículos em bom estado de conservação e no caso dos motociclistas, manter o capacete sempre bem afivelado.
Morte no Túnel Antioneta de Barros pode ter acontecido após trabalhador dormirVídeo: Divulgação/ND
O túnel recebeu recentemente cerca de R$ 8 milhões em investimentos do Governo do Estado para limpeza completa, troca da iluminação, modernização do monitoramento, instalação de novos sensores de gases e jatoventiladores, além de uma simulação de emergência. Agora, especialistas defendem que o foco também esteja na prevenção dos acidentes.
Alternativas
Professor de legislação de trânsito e integrante da Câmara Temática do Contran (Conselho Nacional de Trânsito), Sidnei Schmidt avalia que a própria característica do túnel incentiva o aumento da velocidade. O efeito sonoro provocado pelo ambiente fechado, aliado à longa reta, estimula muitos condutores a acelerar além do permitido. Para ele, uma das medidas mais eficazes seria a instalação de radares fixos devidamente sinalizados e a redução do limite de velocidade de 80 km/h para 70 km/h. “Estamos falando em preservar vidas. Em determinados pontos, o controle eletrônico é fundamental.”
O especialista em mobilidade Cássio Taniguchi considera que o problema vai além da infraestrutura. Segundo ele, Florianópolis ainda convive com uma cultura que privilegia o automóvel e incentiva velocidades incompatíveis com o ambiente urbano. Para Taniguchi, a conscientização da população precisa caminhar junto com medidas de engenharia e fiscalização para reduzir o número de vítimas.
Especialista em psicologia do trânsito, Salete Silva afirma que vias em boas condições, como o túnel, frequentemente transmitem aos motoristas uma falsa sensação de segurança. Isso faz com que muitos relaxem a atenção ou excedam a velocidade sem perceber. Ela lembra que os acidentes mais graves do país costumam ocorrer justamente em pistas retas e bem conservadas.
“O veículo desperta uma sensação de poder e faz o motorista agir muito mais pelo emocional do que pela razão”, afirma. Para a psicóloga, radares e fiscalização ajudam, mas a principal mudança depende da consciência do próprio condutor. “Se a pessoa só reduz a velocidade quando vê um radar, ela precisa refletir sobre como dirige quando acredita que ninguém está olhando.”
Acidentes nos túneis em 2025
- 21 acidentes de trânsito, sendo 2 com morte, uma em 8 de setembro, outra em 15 de novembro;
- 13 com vítimas grave/leve;
- 6 sem vítimas.
Acidentes nos túneis de janeiro a junho de 2026
- 6 acidentes, sendo 2 com morte;
- 3 com vítimas grave/leve;
- 1 sem vítima.
