O consumo das famílias brasileiras caiu 0,4% entre abril e junho de 2026, após registrar alta de 0,8% nos primeiros três meses do ano. A retração ocorreu mesmo em um cenário considerado positivo para o mercado de trabalho, com desemprego na mínima histórica e aumento da renda real.
O resultado faz parte dos dados do Produto Interno Bruto (PIB), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na terça-feira (1º).
O consumo das famílias é formado pelos gastos com produtos e serviços do dia a dia, como alimentos, roupas, eletrodomésticos, veículos e serviços. Por isso, a queda indica que, de forma geral, os brasileiros reduziram o ritmo das compras no período.
Para o economista Ricardo Julio Rodil, sócio-líder de Capital Markets da Crowe Macro, o endividamento ajuda a explicar por que o consumo recuou mesmo com emprego e renda em alta. Segundo ele, parte do orçamento das famílias já está comprometida com parcelas e juros de dívidas contraídas anteriormente.
“Se você tem 100 para gastar, não tem como se endividar mais, já está gastando 80 em juros e parcelas já assumidas, só sobram 20. Se você precisa 25, acabou”, resume.
Dívidas comprometem renda das famílias
Na avaliação do economista, é importante observar não apenas o tamanho da dívida, mas também para que o crédito está sendo usado.
Rodil diferencia, por exemplo, uma dívida contraída para comprar um bem durável, como um carro ou uma geladeira, daquela utilizada para financiar despesas básicas.
“Uma coisa é comprar um bem durável, como carro ou geladeira; outra, bem mais preocupante, é recorrer ao crédito para financiar itens básicos, como a compra do supermercado, que se repete todo mês”, explica.
Ele também cita as apostas esportivas como um fator que pode agravar o comprometimento da renda das famílias. Para Rodil, a publicidade das casas de apostas deveria sofrer restrições.
Famílias têm limite para cortar gastos
Outro ponto destacado pelo economista é que o consumo não pode cair indefinidamente. Mesmo quando a renda diminui ou o orçamento fica comprometido, existem despesas essenciais que precisam continuar sendo pagas.
“Se eu tenho meu salário reduzido, eu não posso comer menos do que um quilo [de arroz] por semana. Então a família está num beco sem saída”, afirma.
Por esse motivo, Rodil considera o consumo das famílias uma variável pouco elástica: ele não aumenta na mesma proporção quando a renda cresce, mas também não pode cair abaixo de determinado nível, já que parte dos gastos é essencial.
PIB cresce 0,5% no segundo trimestre
Enquanto o consumo das famílias recuou, o PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026. O resultado ficou acima da expectativa de 0,4% do mercado, mas representou uma desaceleração em relação ao crescimento de 1,1% registrado no primeiro trimestre.
Para Rodil, o resultado ainda mostra uma economia crescendo em ritmo limitado.
“O PIB, em si, como medida anual da geração de riqueza de um país, está patinando”, afirma.
Segundo o economista, o crescimento acumulado em 12 meses segue próximo de 2%, patamar que ele considera insuficiente para o estágio atual da economia brasileira.
Juros ainda pressionam orçamento
Apesar da redução da taxa básica de juros, a Selic caiu de 15% para 14% ao ano desde março, Rodil avalia que o crédito ainda permanece caro para as famílias.
“Ainda tendo caído, é um nível estratosférico”, diz.
Na avaliação do economista, com a inflação próxima do teto da meta, os juros reais permanecem em torno de 5%, o que dificulta uma recuperação mais forte do consumo e dos investimentos.
Investimento pode ajudar a economia
Rodil também defende o aumento dos investimentos produtivos como uma forma de permitir que a economia cresça sem gerar pressão adicional sobre os preços.
Segundo ele, programas de transferência de renda são importantes para auxiliar famílias em situação de dificuldade, mas é necessário ampliar também a oferta de produtos e serviços. Caso contrário, o aumento da demanda pode contribuir para pressionar a inflação.
O economista cita como exemplo incentivos para a aquisição de máquinas e equipamentos modernos. Entre as possibilidades estão a redução do imposto de importação, financiamentos subsidiados pelo BNDES e melhorias na logística.
A expectativa é que empresas consigam produzir mais com a mesma estrutura, aumentando a produtividade e permitindo que o consumo cresça sem provocar uma pressão equivalente sobre os preços.
*Com informações de SBT News
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