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Veja como os açorianos ajudaram a construir a identidade de Santa Catarina

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Dos Açores vieram os habitantes que transformaram Santa Catarina – Foto: Cristian Sagaz/ND

Durante quase três séculos, quem chegava ao território que hoje chamamos de Santa Catarina não encontrava estradas. Encontrava o mar. Era por ele que chegavam alimentos, notícias, soldados, novos moradores e mercadorias.

Foi olhando para o Atlântico que nasceram as primeiras freguesias, as fortalezas e os engenhos que moldariam a identidade do litoral catarinense. E os primeiros que chegaram por aqui e decidiram ficar foram os açorianos, que trouxeram uma identidade que permanece viva até hoje nas igrejas coloniais, nas festas religiosas, nas tradições do divino espírito santo e na delicada renda de bilro.

Quem assistir ao 5º episódio da Série 500 de SC do grupo ND, saberá mais sobre essa história que começa no litoral norte, em São Francisco do Sul, considerada a cidade mais antiga de Santa Catarina.

A localização privilegiada da Baía da Babitonga transformou a região em ponto de parada de navegadores europeus ainda no início do século XVI. Entre eles, o francês Binot de Gonneville, cuja passagem pela costa catarinense é apontada por parte dos historiadores como um dos primeiros registros europeus da região.

A localização privilegiada da Baía da Babitonga transformou a região em ponto de parada de navegadores europeus ainda no início do século XVIFoto: Cristian Sagaz/NDA localização privilegiada da Baía da Babitonga transformou a região em ponto de parada de navegadores europeus ainda no início do século XVIFoto: Cristian Sagaz/ND

“Ele é um navegador francês que vem conhecer um pouco do Atlântico Sul. Entre esses lugares, há historiadores que apontam sua chegada a São Francisco do Sul”, explica o pedagogo e mestre em Patrimônio Cultural Aldair dos Santos Carvalho.

Apesar dessas primeiras incursões, a ocupação portuguesa demoraria a se consolidar. Durante os séculos XVII e XVIII, a disputa entre Portugal e Espanha pelo controle do sul da América levou a Coroa portuguesa a reforçar sua presença na costa catarinense. A construção de fortalezas, como as de Anhatomirim, Ratones e Araçatuba, fazia parte dessa estratégia de defesa do território. Mas somente erguer fortificações não bastava. Era preciso povoar.

Foi durante o reinado de D. João V que Portugal lançou um amplo programa de colonização do litoral catarinense. A missão era clara: ocupar as terras, produzir alimentos para abastecer outras regiões da colônia e garantir a soberania portuguesa diante das constantes disputas territoriais. E do outro lado do oceano, a realidade favorecia esse plano.

O arquipélago dos Açores enfrentava um período de superpopulação, dificuldades econômicas e sucessivas crises agrícolas. Em 1746, a Coroa portuguesa publicou um edital convocando famílias interessadas em emigrar para o sul do Brasil.

Segundo o historiador Francisco do Vale Pereira, pesquisador do Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), havia critérios rigorosos para essa seleção.

“A Coroa lança um edital para convocar e cadastrar pessoas que quisessem vir ao Brasil meridional. A preferência era por famílias já constituídas, com homens de até 35 anos, mulheres em idade fértil e, de preferência, com filhos pequenos”, explica.

A primeira expedição oficial partiu em 1747 e desembarcou em Santa Catarina em 6 de janeiro de 1748, Dia de Reis. Até 1756, cerca de seis mil açorianos e madeirenses cruzaram o Atlântico e passaram a ocupar diferentes pontos do litoral catarinense.

Ao redor das igrejas nasceram as primeiras freguesias, que organizavam não apenas a vida religiosa, mas também a administração, a convivência social e o desenvolvimento econômico das novas comunidades. “As comunidades vão se reunir em torno das freguesias. É daí que surgem Santo Antônio de Lisboa, Lagoa da Conceição, Ribeirão da Ilha, São Miguel, São José da Terra Firme e tantas outras”, explica o padre Kelvin Borges, da Arquidiocese da Capital.

Com as freguesias chegaram também costumes que atravessariam gerações. A Festa do Divino Espírito Santo, o Terno de Reis e a Procissão do Senhor dos Passos continuam reunindo comunidades e preservando práticas religiosas herdadas dos colonizadores portugueses.

Quando os colonizadores chegaram, encontraram um território já ocupado por povos indígenas que dominavam profundamente o ambiente local. Entre esses conhecimentos estava o cultivo de diferentes variedades de mandioca, alimento que rapidamente substituiria o trigo, escasso na nova terra.

Da combinação entre o saber indígena e as técnicas trazidas pelos europeus nasceu um dos maiores símbolos da economia catarinense durante os séculos XVIII e XIX: o engenho de farinha.

Adaptando a tecnologia dos moinhos movidos por tração animal à moagem da mandioca, os colonizadores desenvolveram uma atividade que transformou a Ilha de Santa Catarina em um importante centro produtor. Em seu auge, o litoral chegou a reunir mais de 300 engenhos, movimentando a economia regional por quase dois séculos.

Hoje, a farinhada continua sendo muito mais do que um processo produtivo. É um ritual comunitário. “Promover essas farinhadas hoje é um grito de resistência. É dizer que nós ainda estamos aqui. Que essa cultura continua existindo”, afirma Cláudio Agenor de Andrade, proprietário do Engenho Andrade.

Outra tradição preservada é a renda de bilro, técnica artesanal transmitida de geração em geração principalmente pelas mulheres das comunidades pesqueiras. Na Casa dos Açores, em Biguaçu, a rendeira Fernanda Gonçalves Martins mantém viva essa herança aprendida ainda na infância. “Aprendi com a minha avó e com a minha mãe. Quando a gente faz renda, lembra das pessoas que já partiram. Tem um valor sentimental muito grande”, conta.

A Casa dos Açores, que foi transformada em Museu Etnográfico, preserva elementos do cotidiano colonialFoto: Cristian Sagaz/NDA Casa dos Açores, que foi transformada em Museu Etnográfico, preserva elementos do cotidiano colonialFoto: Cristian Sagaz/ND

A nutricionista Sabrina Amaral dos Santos participa do grupo de rendeiras pensando nos vínculos entre gerações. “Tenho duas filhas e quero ensinar para elas. É uma forma de garantir que essa cultura não se perca.”

Para a enfermeira Dionice Furlani, cada ponto da renda também representa uma homenagem às mulheres que vieram antes. “É como respeitar aquelas mulheres que produziam renda antes de nós. Quando essa tradição desaparece, perdemos também uma parte da nossa identidade.”

A Casa dos Açores, que foi transformada em Museu Etnográfico, preserva elementos do cotidiano colonial, como o antigo aqueduto responsável pelo abastecimento de água e a cacimba utilizada pelos moradores.

Também guarda a memória da população escravizada, responsável por diferentes atividades domésticas e de manutenção da propriedade, lembrando que a sociedade colonial foi construída sobre relações profundamente desiguais.

“Ela representa um marco da história cultural açoriana em Santa Catarina. É um verdadeiro portal de entrada para compreender essa trajetória”, define a escritora e socióloga Lélia Pereira da Silva Nunes.

Ao longo de quase três séculos, as tradições trazidas pelos colonizadores portugueses foram sendo transformadas pelo contato com indígenas, africanos e, posteriormente, com outros grupos de imigrantes que chegaram ao estado. É justamente desse encontro que nasce e se molda a identidade do litoral catarinense.

No próximo episódio da série “SC 500 Anos” você vai conhecer mais sobre as disputas de território envolvendo Santa Catarina e o momento em que essa terra deixa de ser província e se torna um Estado.

Sobre o Projeto “SC 500 Anos”

É um movimento multiplataforma do Grupo ND que tem a curadoria de Lelia Pereira Nunes, Sueli Petry, Claudio Silveira e Moacir Pereira e é patrocinado pela Aegea SC, Fiat, Martinelli, Blumenau Iluminação, Fiedler Automação Industrial, Alínea Urbanismo, UNC – Universidade do Contestado, Koerich e Trimania Norte, Trimania Sul, Trivale e Diamante.

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