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El Niño está mais forte ou o planeta está mais quente? Entenda – SCC10

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Medir a força de um El Niño parece simples: basta observar quanto a temperatura do Oceano Pacífico está acima da média. Mas, com o planeta cada vez mais quente, essa conta ficou mais complicada.

É justamente para melhorar essa avaliação que o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) passou a utilizar uma nova maneira de medir a intensidade do fenômeno: os chamados índices Niño relativos.

A abordagem tem uma lógica parecida com a utilizada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que acompanha o chamado Relative Oceanic Niño Index (RONI), ou Índice Oceânico Relativo do Niño.

Por que a forma tradicional de medir o El Niño pode causar confusão?

Os meteorologistas medem tradicionalmente, a intensidade do El Niñopela anomalia da temperatura da superfície do mar em determinadas regiões do Pacífico Equatorial. Uma das principais referências é a região chamada Niño 3.4, localizada no Pacífico tropical central. Quanto maior a temperatura do mar em relação à média histórica, maior tende a ser o valor do índice.

O problema é que o oceano como um todo está mais quente por causa do aquecimento global. Isso significa que uma temperatura registrada hoje pode parecer muito acima da média quando comparada com décadas passadas, mesmo que a diferença entre o Pacífico e o restante dos trópicos não seja tão grande.

Segundo o ECMWF, o aumento das temperaturas de fundo pode fazer com que eventos recentes de El Niño pareçam mais fortes, enquanto episódios de La Niña podem parecer mais fracos quando analisados apenas pela metodologia tradicional.

Como o ECMWF propõe medir a força do El Niño?

Em vez de observar somente quanto o Pacífico está mais quente que uma média histórica, o novo método compara a temperatura da região do El Niño com a temperatura média dos trópicos naquele mesmo período.

A lógica é relativamente simples: identificar quanto o Pacífico está se destacando em relação ao restante da faixa tropical. Dessa forma, o índice fica menos sensível ao aquecimento de longo prazo do planeta e consegue representar melhor a intensidade relativa do fenômeno.

O ECMWF chama essa nova medida de Relative Niño, ou Niño relativo.

NOAA também usa uma medida relativa

A NOAA mantém uma série histórica chamada Relative Oceanic Niño Index (RONI).

O índice utiliza a região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial, e desconta dela a anomalia média da temperatura da superfície do mar em uma faixa mais ampla dos trópicos, entre 20°N e 20°S.

Em outras palavras, o RONI procura responder a uma pergunta diferente daquela feita pelo índice tradicional: A NOAA utiliza uma média móvel de três meses para calcular o RONI. Pela metodologia, valores acima de +0,5°C são associados a períodos de El Niño, enquanto valores abaixo de -0,5°C indicam La Niña.

A série histórica disponibilizada pela NOAA reúne dados desde 1950 e foi atualizada para incluir informações de 2026.

O que os dados do RONI mostram em 2026?

Os dados mais recentes disponíveis na página da NOAA mostram uma rápida elevação do RONI ao longo de 2026.

O índice passou de valores negativos no começo do ano para de 0,0ºC em Janeiro Fevereiro Março para 1,4ºC em Abril Maio e Junho. Isso mostra que, pela metodologia relativa, o Pacífico também passou a apresentar uma diferença positiva importante em relação à temperatura média dos trópicos.

É importante destacar, porém, que a própria NOAA informa que os valores mais recentes do RONI são considerados estimativas e podem sofrer alterações nos meses seguintes devido ao processamento dos dados.

RONI e Niño relativo são a mesma coisa?

Os cientistas dizem que não exatamente. Segundo o ECMWF os dois índices seguem uma ideia semelhante: considerar o aquecimento de outras áreas tropicais para evitar que o aumento geral da temperatura do planeta seja interpretado automaticamente como um El Niño mais intenso.

Mas existem diferenças na metodologia e na forma como os dados são calculados.

O ponto em comum é importante: os cientistas estão buscando maneiras de separar o aquecimento geral do planeta da assinatura específica do El Niño.

O que muda na prática?

A diferença pode parecer pequena, mas é importante para comparar eventos de El Niño de diferentes épocas.

O ECMWF analisou dados desde 1982 e encontrou uma forte relação entre os índices tradicionais e os relativos. Porém, existe uma diferença de tendência: nos primeiros anos da série histórica, os valores relativos eram maiores; nos períodos mais recentes, passaram a ser menores.

Um exemplo citado pelo ECMWF é o El Niño de 2023, que aparece cerca de 0,5°C mais fraco quando analisado pelo índice relativo.

Isso não significa que o El Niño de 2023 tenha sido “corrigido”. A mudança mostra que a maneira de medir o fenômeno muda quando o aquecimento do planeta é levado em consideração.

Por que isso é importante?

O El Niño não é definido simplesmente porque a água do Pacífico está quente.

O fenômeno envolve uma série de alterações no oceano e na atmosfera, que podem modificar os padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diferentes partes do planeta.

Por isso, saber exatamente qual é a intensidade do fenômeno é importante para melhorar as previsões sazonais e avaliar possíveis impactos.

O ECMWF ressalta, porém, que nenhum número sozinho consegue representar completamente um episódio de El Niño.

Cada evento apresenta uma distribuição diferente das temperaturas do oceano, e a resposta da atmosfera também depende das condições existentes em outras regiões tropicais.

E o que isso significa para Santa Catarina?

Para Santa Catarina, a discussão é especialmente importante porque o El Niño pode alterar padrões de chuva e temperatura na região.

Mas existe um cuidado fundamental. O ECMWF aponta que um índice de El Niño mais alto não significa automaticamente que determinado evento extremo em Santa Catarina será causado pelo fenômeno.

A atmosfera é influenciada por vários sistemas ao mesmo tempo. Chuva intensa, temporais, granizo, vendavais e outros eventos dependem da combinação de diferentes fatores meteorológicos.

Por isso, os índices como o RONI ajudam a entender o estado do sistema climático, mas não funcionam como uma previsão direta do tempo em uma determinada cidade.

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